A MULHER SORRISO

Deve ser uma das cenas mais famosa da história do cinema: o final de "Tempos Modernos", onde a jovem companheira de Carlitos chora, por seu pai morto, pelo mundo injusto, por um amor perseguido. O filme é mudo; mas qualquer pessoa que conheça um pouco de inglês consegue ler, nos lábios do vagabundo, a pequena e doce palavra de consolo: "smile" (sorria). E a menina abre um sorriso largo, claro, brilhante. O mundo se ilumina subitamente para os espectadores. E, pela primeira vez em sua longa jornada, nosso querido vagabundo está acompanhado quando caminha em direção ao horizonte. O nome da menina era Paulette Godard. Na época, era esposa de Charles Chaplin, cuja mania de colocar na tela as mulheres que amava não diminuiu em nada a qualidade de seus trabalhos.

Esta é a melhor memória que alguém pode ter da atriz: um rosto sorridente, que fazia nascer o sol no horizonte e no coração do mais adorável vagabundo da história. E não pensem que ela só chegou às telas por obra e graça de seu ilustre marido: a garota tinha talento, chegou, nos anos 40, à lista das dez maiores atrações do cinema americano e provou, em obras como " O Grande Ditador", sua impressionante capacidade de sincronizar a poesia e o ritmo da comédia.

"Tempos Modernos", " O Grande Ditador", são filmes filhos de um caso de amor: a emoção de Chaplin no primeiro parecia real; e no segundo, quem mais exceto Hannah/Paulette Godard, a mulher amada do Barbeiro/Chaplin, poderia ser aceita para cortar com imagens de sonho e esperança o poderoso monólogo com que se encerra o filme? "Hannah, escuta", fala Chaplin na cena. E o filme se encerra com ela, as nuvens no fundo, o olhar procurando, embevecido e esperançoso, alguma coisa que não se pode enxergar, bem no horizonte, onde, ate o filme anterior, o Vagabundo desaparecia em sua caminhada eterna.

Bem, esta história toda é porque os jornais estão dizendo hoje que Paulette Godard morreu ontem. Morreu nada, quem pegar um vídeo com ela vai poder descobri-la em toda sua energia, lirismo e vivacidade. Estrela de cinema não morre nunca, fica encantada à Guimarães Rosa. Para os mais detalhistas, que só são capazes de compreender a vida como um excesso de energia numa estrutura orgânica (o que foi negado desde que o público descobriu que as figuras na tela eram vivas) interessam algumas informações biográficas: ela nasceu em 1915 (tinha até ontem, portanto, 75 anos - agora, ficou eterna) em Whitestone Long Island, Nova Iorque. Casou-se quatro vezes; da primeira não se tem notícia; da segunda vez, foi com Charles Chaplin, da terceira, com o ator Burgess Meredith (lembra-se do treinador de "Rocky"?); por último, com o escritor Erich Maria Remarque. Até ontem, vivia no povoado suíço de Ronco, perto da fronteira italiana. Quando nasceu oficialmente - antes de sua vida cinematográfica, portanto - recebeu o nome de Marion Levy senhora de quem não temos notícia. Conheceremos, sempre, apenas Paulette Godard, à disposição em vídeos, mostras retrospectivas e dentro dos corações de espectadores em todo o mundo. A mulher que segunda velhas lendas de Hollywood, quase foi Scarlett O'Hara. E que nos conquistou eternamente com seu sorriso, largo, como a luz do sol.

 

Júlio César Montecchi   Estado de Minas – 24 de Abril de 1990

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